ACOMPANHANDO A TECNOLOGIA SEM MEDO…

NAVEGAÇÃO TERRESTRE

ORLANDO_RAONINAVEGAÇÃO NA SELVA

Orlando Vilasboas na tribo Txucarramãe, do cacique Raoni

 

“Na paz ou na guerra, defende a terra contra o perigo

Com ânimo forte. Se for preciso enfrenta a morte.

Afronta se lava com fibra de herói de gente brava”

– Guerra Peixe/Barros Filho –

Obs:

O meu curso de Navegação Astron era completado por Navegação Eletrônica. No início, era a Casio FX880 P. Depois, a partir de 1992, pela TI 92 PLUS, programável. E outras; Tudo, empregando o computador, para conferir…

A TI 92 PLUS foi uma evolução da CASIO, inicialmente fabricada na China, pelas fábricas vendidas pelo desmonte da indústria norte-americana. A linguagem de programação continuou Basic. Embora mais lenta que as demais, ainda continuava sem substituta para quem não tinha tanta pressa!!!

 

 NAVprogramação facilitando as coisas

FX850PPersonal Computer Casio FX-880P, uma maravilha para quem necessita – cabe no bolso da camisa e suas pilhas duram mais de 2 anos em operação intermitente (normal). A Casio ainda hoje o fabrica e o fornece, só que  em lotes de 30 unidades. Um engenheiro inglês o compra, insere programas aplicativos de topografia e os vende por preço três vezes maior que o normalmente aceito pelo mercado… Mas vale a pena. Usei uma por mais de trinta anos no barco, ambiente salgado, úmido, agressivo e terminei caindo nas mão do tal inglês…

 

Ao entrar na selva, você mergulha no desconhecido, tudo lhe parece

igual. Não há pontos ou qualquer indicativo de orientação, de referência,

pelo menos aparentemente.

Fator de primordial importância para o militar em patrulha: onde

está o norte? Você necessita de uma bússola, de um computador programado e um cronômetro com função lap. O resto, sai no mij…

O exemplo do Coronel Fawcett demonstra plenamente o perigo de

penetrar na selva. Ele nunca tinha imaginado ter que ficar inteiramente

a mercê dos guias índios. Ficava irascível, tratava a todos com extrema

aspereza e foi morto, por isso, com uma bordunada na nuca desfechada

por um índio kamaiurá.

Caçando em Mato Grosso, algumas vezes me vi perdido. O principal

é manter a calma. Sentar, beber um pouco d’água, comer alguma

coisa, raciocinar e avaliar a distância que o separa de um ponto conhecido,

por onde já tenha passado: este é o raio do círculo de sua salvação.

Se você não atravessou algum curso d’água, não vá contribuir para aumentar

o problema; volte para o lugar em que você se sentou. Recomece

a raciocinar. Daí, a importância de se estar sempre navegando.

Navegação Terrestre Autosuficiente  

É fundamental que você conheça bem os detalhes do planeta em que vive; depois,

onde ele se situa no sistema solar e na Via Láctea. Sua órbita, suas

posições principais e diárias. Hoje, dia 16 de março, quase chegando a um ponto importantíssimo de sua órbita (um dos 2 equinócios, ou ponto Ὠ’), onde está o Sol?

O dia na Terra, seus movimentos, suas relações no nosso Sistema, onde você se encontra (φ, λ) – sua posição – , sobre a superfície terrestre: latitude e longitude.

O céu como verdadeiro relógio natural, empregado pelos antigos. Lembre-se de Marco Pólo, caminhando por “terras nunca dantes navegadas”, perigosos desertos, guiado pelos astros. Muito antes dos notáveis percursos de Marco Pólo, sabemos de realização de inúmeras viagens fantásticas pelo mundo perigoso e desconhecido.

O mais antigo longo percurso de que se tem notícia, foi o realizado

pelo egípcio Hennu, cujo relato de viagens realizadas há quatro mil

anos, está esculpido em pedra que ainda hoje existe; ele percorreu todo o

até hoje temido Mar Vermelho, num barco de uma única vela, sozinho.

Cerca de dois milênios depois, em Massalia (hoje Marselha), um

outro destemido excursionista grego, solitário, Pytheas, realizava um

notável percurso tranquilamente, enquanto Alexandre o Grande, rei da

Macedônia, batalhava para a expansão de seu já vasto império. Pytheas

estudava o céu, as estrelas, particularmente a Polar, os planetas e o fenômeno

das marés, trezentos anos antes de Cristo. Homem de ciência, matemático

e astrônomo, explorou sozinho em seu veleiro de uma só vela,

o Mediterrâneo, passou o estreito de Gibraltar entrando no Atlântico,

velejou as costas do que hoje são Portugal, França e Espanha navegando

pelo Sol e pelas estrelas. Atravessou o Mar do Norte para a Inglaterra,

prosseguindo para a Irlanda, continuando para norte até ser barrado

pelo gelo. Foi, portanto, o primeiro explorador do Ártico e o primeiro a

afirmar que nas altas latitudes o Sol nunca se põe. Foi também o primeiro

a afirmar que a Lua é a principal causa das marés.

Os Vikings nos anos 1000 estiveram na América do Norte; depois

de meio milênio, veio a Época dos Grandes Descobrimentos, tornada

possível pelo Infante D. Henrique, de Portugal, culminando com a primeira

volta ao mundo, realizada pela expedição de Magalhães.

Nada disso foi feito mediante alguma mágica. Dentro de suas enormes

limitações, o homem se esforçava para conhecer o planeta Terra e

suas adjacências no espaço em que se encontra hoje, depois da Grande

Explosão. Os nossos índios, os moradores da selva, com todo o conhecimento

prático que adquiriram, também não fazem nenhuma mágica:

eles navegam de maneira semelhante, isto é, vão de um ponto a outro

distante com a precisão necessária.

Todo esse estudo melhora muito o senso de orientação do combatente,

que adquire noções de novas fontes de informações naturais,

de grande utilidade na selva. Com isso, o grau de confiança aumenta

consideravelmente, uma vez que o risco de ficar perdido na selva é nulo

ou minimizado.

É necessário que se tenha sempre em mente a posição, uma “visão

espacial” da área (e checá-la sempre que houver oportunidade). Isto é

conseguido estudando minuciosamente a carta (fotografias aéreas podem ser muito úteis).

A grande área de operação deve ser bem delimitada na carta ou

croquis, e conter latitudes e longitudes, com a indicação dos principais

obstáculos, pontos notáveis, rios, relevo, vilas e lugarejos, estradas ou

picadas. “Marcá-la” na memória!

 

É uma norma de segurança durante os cursos e nos exercícios de

treinamento, que as áreas escolhidas devem ser bem delineadas, limitadas,

principalmente para não haver elementos perdidos ou, pelo menos, para

facilitar o resgate. Como exemplo, um exercício realizado durante o curso

de Operações Especiais em 1957: salto de pára-quedas no Parque

Nacional do Xingu, num ponto entre o rio Xingu e o rio Tauatuari, na

margem oposta da aldeia dos kamaiurás e Posto Capitão Vasconcelos,

com atuação na área durante 25 dias (marcha e sobrevivência na selva),

sem ultrapassar os dois rios. O perigo de alguém se perder fica minimizado,

embora seja uma área bem grande e de selva fechada. E uma recomendação

expressa para o caso dos perdidos: marchar para NW (no

caso o rio Tauatuari) e aguardar resgate por barco com motor de popa

(pontão M4) na margem direita. Desse modo, nunca tivemos algum elemento

perdido durante os exercícios na selva.

Mesmo que sejam absorvidos os conhecimentos rudimentares de

astronomia, o civilizado jamais alcançará o sentido das minúcias da natureza

como os que nasceram e sempre viveram na mata, tendo o céu como bússola.

Uma simples posição anormal de uma folha morta é notada, a bulha dos mutuns significa algo para o nativo, fato que nem é percebido pelo civilizado. Um ruído de um bando de macacos demonstra ao nativo que eles encontraram uma árvore frutífera, que bem poderá ser achada. É a condição da sua existência.

Daí a importância da dedicação do combatente para atingir o limiar de sua

competência na ciência da selva e no domínio dos meios disponíveis e

muito mais eficazes, inclusive conhecendo suas limitações próprias de humano com os sentidos embotados. O progresso embota os sentidos, afasta da natureza e o civilizado dependerá cada vez mais de instrumentos para suprir suas deficiências. E consegue, mas com muita dedicação. Como não podemos carregar todos eles, os instrumentos, numa longa marcha a pé, temos que incorporar inúmeros conhecimentos práticos de utilidade.

O índio, ou o bom mateiro, sabe onde o Sol se encontra durante as horas do dia empregando meios práticos, não necessitando obrigatoriamente enxergá-lo.

Para se orientar pelo Sol você tem que saber onde ele se encontra a qualquer hora (exata),  saber  sua declinação, δ, sua altura, a, e seu azimute, A.

A Lua, embora observada e útil, é menos utilizada devido aos seus efeitos visíveis mais amenos sobre a Terra.

O mateiro, ou o índio, é um observador arguto, constante, diário,

durante todo o ano, comparando as sombras, tamanho e direção, conforme

os lugares e, como não tem bússola, já tem o processo incorporado na memória.

Porém, não sabe explicar. Eles observam quando a sombra é zero (sol à pino), quando os dias são de duração iguais às noites, Sol se distanciando para norte (atravessando para o outro hemisfério). E tudo sem saber o nome dos fenômenos. O mesmo, para algumas poucas constelações e estrelas isoladas, nem sempre sabendo seus nomes (que acham muito complicados) mas que são bem diferenciadas entreTudo muito fácil, muito simples, muito rudimentar, mas muito entranhado na mente do caboclo semi-alfabetizado. Eles têm o céu na memória, sem necessitar saber os nomes de seus componentes, exatamente como os antigos já faziam há mais de 4 mil anos, cada um dando o nome que lhe aprouvesse.

Como para eles, na selva, o Cruzeiro do Sul está sempre muito baixo,

sempre encoberto pelas altas árvores, é pouco empregado. Observam

as constelações conforme a época do ano. Se a camada significativa de

nuvens permitir, exercita sempre suas observações.

Dos planetas, conhecem Vênus (como Estrela Dalva), Marte (pela

cor avermelhada) e Júpiter (azulado, diferente). Sabem as épocas em

que Vênus aparece, não fazendo confusão. São muito supersticiosos e

gostam de horóscopo, inventando lendas e histórias como processos

mnemônicos para fixar na memória a observação. Distinguem os satélites

artificiais, mas não acreditam que foram lançados pelo homem; “são

aviões muito altos”. Homem na Lua? É brincadeira… Agora, com o GPS,

eles devem estar se convencendo.

O céu é, assim, muito valorizado e muito observado sempre que

seja possível. E têm muito tempo para isso (não sentem necessidade de relógio). Deitado em esteira de palha no pátio ou quintal de casa, o mateiro sabe muito bem o rodízio das estrelas no céu, o pequeno adiantamento diário na hora do nascer,

passando por sobre a cabeça e morrendo sucessivamente no correr dos anos, divagando sobre Deus e sua obra.

Identificam as constelações próprias de cada estação do ano, correlacionando-

as com o clima, épocas de plantio. Dão baile em muito estudante

universitário desses por aí, que nem sabem que existem estrelas

no céu. É realmente impressionante, pelo menos para mim.

Certa vez Orlando Vilas Boas me apontou um índio Kamaiurá e declarou “Se ele fosse civilizado, seria um cientista”. Naquela época, 1956, achei que era brincadeira; hoje, sei o por quê da afirmação de quem conhecia profundamente os povos da selva.

Costumamos subestimar o conhecimento dos que julgamos ignorantes pelos nossos padrões, principalmente de aparência: na mata, eles são muito superiores e, principalmente, extremamente humildes. Olham para nós como olhávamos para Einstein… Para compreendê-los, temos que estudar muito e, como nos fica faltando a parte prática intensiva, nunca os igualamos.

Na mata, devemos verificar periodicamente a nossa agulha magnética;

cuidado com materiais metálicos (armamento, facão, radinhos, etc.). Nas travessias de cursos d’água, cuidar para protegê-la.

Manter sempre o relógio aferido (controlar sua “marcha”, isto é, saber

quantos décimos de segundo ele adianta ou atrasa por dia). Os relógios

eletrônicos modernos, digitais ou analógicos, possuem uma precisão

fantástica, mesmo os mais baratos. Dar preferência aos digitais, com função

lap, isto é, capacidade de parada para determinar um tempo e volta ao

tempo corrido anterior. Digitais, porque mostram as horas, sem necessidade

de análises (paralaxe, inclusive).

O controle do trajeto, efetuado à base de bússola e distância percorrida

fornece uma posição aproximada, estimada.Mas, para grandes percursos, é muito impreciso e cansativo.

Se conhecemos a altura do Sol, seu azimute magnético e a hora certa, podemos calcular facilmente nossa posição com boa precisão, muito melhor (e muito mais comodamente) que com bússola e distância percorrida.

Numa longa marcha pela selva, temos que adotar procedimentos diferentes daquelas de simples marchas curtas. Tudo é simples, fácil e pode ser empregado normalmente, sempre que o Sol seja avistado ou vejamos as réstias de sua luz, indicando a altura e o azimute.

Eis porque o nosso croquis deve sempre conter latitudes e longitudes, sempre.

O GPS, que não existia na época, 1970, é fantástico. Mas deveremos

sempre treinar o sistema auto-suficiente.

Na selva quase sempre o GPS fica “cego, surdo e mudo”. Com sistema especial de antena externa, podemos melhorar sua recepção, principalmente onde haja abertura da mata, céu visível, em clareiras, margens de rios, estradas. Mas não dispensa o

sistema auto-suficiente.

O próprio CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva) não emprega o GPS normalmente, para obrigar o combatente a se orientar naturalmente. Mas o navegador deve saber profundamente sobre o sistema, seus termos técnicos e seu emprego, sem o menor vacilo.

Num salto de paraquedas sobre a selva próxima à fronteira do Suriname, os militares fariam a reorganização da tropa por meio do GPS. Era a Operação Surumú. O americano, então, maliciosamente, desligou o sistema. Caso o exercício tivesse sido realizado com tropa comum, teria sido um desastre, com muitos perdidos na selva.

Em que mês teremos a constelação de Orion (estrelas “3 Marias”) sobre a nossa cabeça, a meia-noite? O mesmo para a Estrela de Magalhães (αCrucis) no meridiano do observador a meia-noite? Esta estrela é a nossa polar-sul, daí a sua importância. Mas é muito difícil de ser localizada (identificada).

Para armazenar tudo num instrumento extremamente portátil: o FX-880P, tornado fora de serie que a Casio só fornece em lotes de 30 unidades. Devido à procura, foi a solução que a fábrica encontrou. Cabe no bolso da camisa e suas baterias duram 2 anos, em média (um GPS gasta suas pilhas em menos de um mês…)

Atualmente, um topógrafo inglês, vivamente, adquire o lote direto da Casio, introduz inúmeros programas de topografia e revende cada exemplar por um bom preço (para ele, claro…). Quem necessita calcular no campo, sob chuva, compra assim mesmo.

Todo militar deve ser expert em navegação (se você perguntar a ele onde fica o zênite e ele titubear, é burocrata ou cdf… cuidado com ele).

 

Guias e Mateiros

 As limitações dos guias ou mateiros dizem respeito à dimensão da

área de atuação. Em áreas conhecidas, eles são muito úteis, se forem de

confiança. Foi o caso lá no Araguaia. Nunca tivemos caso de traição; os

guias que escolhi sempre foram de minha inteira confiança (e sempre os

mantive armados: eles carregavam a carabina 22 e a reserva de munição

do GC).

Quando a área é muito grande, o guia não pode ser empregado com

segurança, embora o seu senso de orientação e destreza na mata sejam

de grande utilidade – caso tivéssemos de estender as buscas e a luta até

o Xingu.

Nesse caso, eles vão por tentativa e erro, fato que pode nem ser percebido pelo comandante da patrulha.

Este processo era o usado pelo Marechal Rondon em seus percursos pela selva. Só empregava os processos precisos para a determinação dos marcos de fronteiro e geodésicos. O americano desenvolveu o processo e o emprega sigilosamente, empregando instrumentos inventados por Fred Leuchter sob encomenda do exército norte-americano.

 

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