DO PÍFANO AO HOMESTUDIO (pelo que lembro)

PARA AMENIZAR UM POUCO


Alagoas, Atalaia/Sapucaia, Engenho Assumpção de Maria, O4/06/1944 (cerca de um ano antes do término da II Grande Guerra, graças à BOMBA ATÔMICA – eu estava com 14 anos de idade e assisti no cinema POLITEAMA  no Recife…).
O Assumpção (engenho bangüê), naquela época  era o “fim do mundo”, não tinha nem energia elétrica. Era candeeiro de querosene. Música? Nem rádio existia por lá e a vitrola – de dar corda – estava sempre quebrada ou não tinha agulha. Uma flauta de ébano com chaves de prata dentro de um estojo bem elegante, tudo de fabricação italiana… em pouco tempo aprendi a tocar algumas musiquinhas (Pai João, Barril de Shop, valsinhas e serestas). Era a única maneira de ouvir música e passar as horas de início da noite, antes de ir dormir para madrugar nos canaviais no dia seguinte. Apareceu um violão de cravelha não sei de onde, com cordas de aço e não deu para fazer muita coisa, por falta de afinação. Afinal, eram 6 cordas que deveriam fornecer alguns sons agradáveis. Quando voltei das férias para Recife, fiz uma bandoleira de barbante e levei comigo, à cavalo até Maceió, o violão, trocado por uma boa faca de “Tarzan” que levei da cidade; eu estava decidido a tocar alguma coisa naquele pinho, que de plangente não tinha nada… Daí por diante, mais de meio-século, chegamos ao MIDI e daqui em diante só Deus sabe o que virá… ainda espero viver o suficiente para ver (ou melhor, ouvir).

DO PÍFANO AO HOMESTUDIO (pelo que lembro) – o mundo mudou muito…

HOMESTUDIO
(por Sergio Izecksohn) – 2010 – transcrição

Não é de hoje que os produtores musicais vêm gerando obras-primas em sistemas de
gravação montados em suas casas. Vários músicos, especialmente a partir da década de 1980, com a tecnologia MIDI, começaram a se voltar para a informática e criaram novas linguagens musicais de expressão internacional. A novidade é uma geração inteira, como vemos agora, formada pelos contingentes culturais os mais diversos, gravando em seus estúdios todo tipo de música, divulgando seu trabalho em CDs ou pela Internet, praticamente alheios ao gigantesco mercado fonográfico tradicional e seus problemas atuais com quedas nas vendas e pirataria. E com tudo feito em casa, como já pregavam Antonio Adolfo, Chico Mário, Hermeto Paschoal e Tim Maia ainda nos anos 70.
Se é uma geração inteira, é inegável a repercussão deste tipo de prática. Com total
liberdade criativa e todo o tempo do mundo, muitos têm conseguido sucesso de crítica e boas vendas. O termo “independente”, que já foi referência dos selos e gravadoras de médio porte, hoje quer dizer feito em casa. Em guetos ou na internet, novos artistas procuram novas linguagens.
Muito mais do que as delícias de captarmos nossa inspiração em casa, sem horários e
outros limites, podemos destacar, nesta prática, a liberdade criativa de todos estes artistas.
Sem a pressão do marketing de uma gravadora comercial, a cultura brasileira e de muitos países pode se livrar dessa padronização estilística que só é necessária para a sustentação dos grandes meios de comunicação, mas é estranha à evolução cultural do país e tem sido fatal para a grande maioria dos gêneros musicais.
Mas não é só com a música brasileira. Este fenômeno é mundial, regido pela
voracidade da indústria e seus modelos de marketing.
De repente, quase na virada do milênio, os computadores e os conversores de áudio
evoluem, seu preço despenca, a internet se populariza e seus usuários passam a devorar
arquivos de áudio feitos por todo mundo. Os gravadores de CDs e os CDs virgens ficam
ridiculamente baratos e, sem ninguém articular, sem nem uma reuniãozinha, sem conspiração de espécie alguma, uma grande revolução aconteceu. Cada músico passa a ter a sua gravadora.
A lista de músicos que partiram para a aquisição de seu próprio material de gravação –
e encontraram canais próprios para atender seus nichos de mercado – é tão vasta que já se pode falar num novo modo de produção. Milhões de músicos, no Brasil e em muitos países, estão produzindo suas obras e de seus colegas em suas próprias casas ou em qualquer outro lugar. Para isso, usam equipamentos variados e de custo relativamente baixo, hoje com uma tendência predominante dos PCs e suas placas de áudio. Seja para atender o mercado fonográfico tradicional, independente ou underground, seja para dar suporte artístico e técnico a outras empresas, como produtoras, emissoras de TV e de rádio, igrejas, agências e clientes diretos como os partidos políticos e os web designers, esses estúdios, com seus recursos no nível em que estão hoje, só são chamados de home porque ficam nas casas das pessoas.
Muitos já são, de fato, estúdios.
Talvez não seja apropriado incluirmos no universo dos home studios equipamentos de
alto custo usados em grandes gravadoras só pelo fato de terem sido instalados na residência de um artista ou produtor. Mas com os equipamentos sendo “engolidos” pelos programas de computador, o custo de um autêntico estúdio caseiro passou a comportar todo tipo de ferramenta de alta tecnologia, equiparando seus resultados, em muitas ocasiões, aos de estúdios infinitamente mais caros.
Assunto impensável para a maioria até pouco tempo atrás, o tratamento acústico, ou
sua ausência, era compensado com criatividade. Hoje, faz parte do orçamento de uma
crescente quantidade de home studios, desde que as despesas com os equipamentos
diminuíram.
O mercado do áudio e a classe musical têm hoje cursos básicos e profissionalizantes de
áudio, MIDI, produção e informática musical, voltados para músicos, operadores de áudio, outros profissionais e estudantes em geral. O interessado não precisa mais se mudar para o exterior para aprender. Mais do que tudo, o acesso permanente aos meios de produção, representados pelos programas instalados no seu próprio computador, leva inevitavelmente à experiência. Mesmo que não haja vagas para todos estagiarem nos grandes estúdios. Mesmo que seja errando e errando até acertar, como, aliás, foi o caso de muitos que aprenderam cortando e colando fita na era analógica, mais do que nunca, quantidades crescentes de interessados têm onde aprender e com o quê. E, como em toda arte, dependendo de 10% de inspiração e 90% de transpiração.
Essas mudanças todas estão deixando alguns técnicos e proprietários de grandes
estúdios de cabelo em pé. Nunca tantos tiveram acesso a tanta tecnologia, a ponto de parcela expressiva da classe musical, que é o seu mercado, levar os estúdios de gravação para dentro de casa. Quanto mais os músicos aprendem a gravar e começam a levar o material pronto para as gravadoras – ou diretamente para o público, em forma de CDs independentes ou arquivos da internet, mais circulam mitos e opiniões forjadas com o intuito de se preservar um mercado. O mais comum é o que diz que “se o seu equipamento não é igual ao meu (ou do estúdio onde trabalho), você não vai conseguir gravar a sério e o seu disco não vai vender”. O Discurso da Exclusão. Em outras palavras: “meu estúdio custou dez milhões de dólares (ou eu tenho tantos anos de experiência) e nem quero ouvir falar em centenas de milhares de novos concorrentes de uma hora para outra”.
Mas há mercado para todos. Talvez, daqui para a frente, não seja mais tão concentrado
como era antes, com cinco ou seis gravadoras decidindo o que o mundo ia ouvir e deixar de ouvir. Talvez não dê para um mesmo artista vender milhões de cópias, mas dê para milhares de novos artistas e gêneros venderem alguns milhares para o seu público. E os técnicos terão um mercado de trabalho muito maior, assessorando os músicos/produtores com sua experiência e conhecimento especializado. A presença de um produtor musical, um técnico de som ou um músico mais experiente sempre será tão bem vinda nesses pequenos estúdios como vem sendo nos maiores. E é essa boa convivência entre o novo produtor/proprietário de um home studio e os convidados mais experientes que permite disseminar informações e expandir o mercado. E os maiores estúdios serão sempre necessários para os maiores trabalhos, de maior complexidade.
O que importa mais aqui, antes da questão quantitativa, é a qualidade artística que
brota naturalmente desse novo modo de produção. Numa fase inicial, é previsível que os novos produtores busquem uma identificação com os modelos musicais presentes nos planos de marketing das gravadoras. Ou em outras palavras, tome mais pseudofunk, axé e sambanejo, agora também feitos em casa. Mas, com o tempo, também é previsível que a liberdade de produzirmos nossa música em nosso habitat se confunda com liberdade criativa. E a decorrência natural poderá ser uma explosão de novos estilos que, em maior ou menor medida, encontrarão suas platéias. A imensa maioria, provavelmente, terá dificuldades em se fazer ouvir. Só que, com o aumento da oferta, a música de qualidade, inovadora dentro de sua estética, deverá encontrar vias alternativas às atuais e se fazer conhecer por um público crescente.
Já temos tido casos, mesmo no Brasil, de discos independentes absolutamente
estourados no mercado, seja de gente conhecida, como Tim Maia e Lobão, seja de artistas novos, como os Racionais. E muitos outros de que nunca ouviremos falar, mas que conquistaram uma vendagem perfeitamente capaz de sustentá-los, embora insuficiente para o apetite de uma grande gravadora.
Incontáveis gêneros musicais que foram simplesmente banidos das gravadoras, como a música erudita e a contemporânea, a musica regional e a folclórica, o jazz e a música instrumental, além de gêneros que estão e sempre estarão sendo inventados, por não serem considerados “comerciais”, têm agora os elementos que faltavam para voltarem a florescer. Independentes do lugar ou do tempo, com as novas ferramentas eletrônicas de produção e divulgação, novos mercados deverão se formar em torno desses muitos segmentos culturais e artísticos.
O que mais incomoda às gravadoras e seus simpatizantes é justamente a aspiração maior da classe musical: a não-concentração de vendagens, a segmentação do mercado fonográfico. Para quem vende cópias de gravações como sabonete, concentrar as vendas em poucos artistas é atraente. Você vende milhões de cópias a partir de uma só campanha de marketing. O argumento da indústria é que isto é fundamental para mantê-la: “se todo mundo começar a gravar, quem vai ganhar dinheiro com isto?” Só que essa prática diluiu a cultura daqui e de muitos países.
Os home studios abrem novas perspectivas. Aliam o melhor do estúdio com liberdade de criação. Para quem lida com arte e se preocupa em criar boa música, o momento não poderia ser mais promissor.
Este Curso de Home Studio visa subsidiar os novos agentes da produção musical com um pouco de conteúdo teórico e prático. Serve para acompanhar as aulas do curso ministrado por mim desde 1994, primeiro como extensão universitária no Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e depois na escola criada para abrigá-lo, o Home Studio. Nunca substituirá qualquer manual, mas antes busca preparar a sua leitura. Este é um tipo de conhecimento que só será sedimentado por anos de prática, da qual esta é apenas uma introdução.
Os assuntos teóricos, tratados de maneira simplificada, no mais das vezes, foram
abordados quando a compreensão da prática assim o exigiu. Acredito que, assim, vinculando sempre a teoria à sua aplicação prática, facilito o estudo teórico ao situá-lo junto a seu objeto de interesse. Então, para citar um exemplo, o assunto ‘timbre’, inclusive freqüências, harmônicos e formas de onda, foi abordado no capítulo sobre equalizadores (que processam timbres), e assim por diante.
Esperando que seja útil, desejo a você uma boa leitura e um bom aproveitamento de todo o material.
Sergio Izecksohn

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Fiz o Curso inicial, pouco mais de 40 horas e montei meu “shack de música no computador”, onde “aperfeiçôo as músicas com inserção de “baixos” e bordões que gosto, tudo comandado pelo computador e alguns poucos programas. As Rosas não Falam, de Cartola ganhou alma nova; Se Você Jurar (de Ismael Silva), Leva Meu Samba (Ataulfo), Rosa, de Pixinguinha também. Como prefiro a música instrumental, elimino a voz e reforço violão e baixo, inserindo pandeiro cuíca, surdo e tamborim sintetizados. Enfim: escuto a música como gosto. Vale a pena… Depois, descreverei os equipamentos necessários: um bom computador com dois ou três HD, um controlador, uma caixa de audio, Sonar/Reason, SoundForge, Sibelius, Band-in-a-Box e alguns livros essenciais (e manuais), algumas video-aulas e um bom curso para não perder muito tempo. As interfaces são todas USB: é ligar e funcionar (algumas configurações por intermédio de mídia – CD-ROM, etc.). Tudo muito simples.

Agora, a Escola expandiu suas atividades apresentando qualquer curso que se desejar. São cursos feitos por professores profissionais músicos, estudantes universitários aplicados, competentes, alguns com extensão no exterior (Berkley, Harvard, MIT, etc.). Por exemplo: o curso de teclado é demais: tudo organizado inteligentemente, com os acordes apresentados de forma a você gravar na memória facilmente. Você aprende o fundamental lá e pratica em casa. Eu aprendi o DÓ e pratico até hoje, tocando o “Samba de Uma Nota Só”..Vale a pena tentar…

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