COMBATE COM O GRUPAMENTO MILITAR DA GUERRILHA, afim de dirimir dúvidas… comuna tem merda rala na cabeça…

00000001 (8)DE ACORDO COM O “VELHO MÁRIO” (O COITADINHO, DOENTINHO, CEGUINHO, DESNUTRIDOZINHO, PERDIDINHO NA SELVA, COM MEDO DE ONÇA…), ERA O MELHOR GRUPO, TODOS FORMADOS EM CUBA E NA CHINA (SIFU…).

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O cmt do EB, gen enzo peri Martins se amofinou e entregou nossas folhas de alterações para os bandidos do desgoverno. Cara inteligente taí: um véio buféio de fifaniféio saramacutéio. encagaça, não cassa a medalha dos larápios e ainda sai com prestígio junto aos bandidos, arriscado a ir sofrer numa função no exterior… cabra bom taí…

Esta é a primeira folha do meu Atestado de Origem, indicando o local onde o projetil de .38 atingiu minha face direita, logo abaixo do olho. Outra pitomba atingiu minha mão, sem gravidade.

O combate foi em 24 de outubro; passei 15 dias no HGBelém, até desinchar e poder voar para Brasília pela VARIG, onde fui operado pelo dr, Daher do HFA. Passados NOV e DEZ eu já estava pronto para o serviço: voltei ao “local” com o Cel Torres. Mas não era, ainda, o mesmo combatente, o que só viria a acontecer depois de derrotada completamente a guerrilha. Minha fantástica recuperação se deu pois eu era da ginástica dos pêsos (iron lift). Construí meu veleiro numa firma do RJ, passei para a Reserva e me dediquei durante 28 anos a velejar pelo fantástico litoral brasileiro, de Bertioga a Natal, passando pelos melhores abrigos, até Noronha, incluindo Abrolhos e Rocas. Preferência pelo litoral de MACEIÓ, AL, e adjacências. Meu objetivo era ir a Miami, passando pelo CARIBE, onde meu irmão, Denizar Maciel, era vice-cônsul brasileiro (MIAMI). Infelizmente, ele faleceu prematuramente e, embora eu tivesse oportunidade de ir lá velejando em barcos de amigos, preferí não ir (os netos seguraram a avó pelas cercanias…). A história desse meu veleiro, o Krum II, é por demais interessante: depois eu conto… nos detalhes: uma “autoridade” tentou impedir, mas, burro como é (ainda está vivo) só deu fora… quase morreu de raiva… era tão burro que se encalacrou em outro problema muito mais grave e quase foi morrer entre as grades. Depois eu conto com os devidos detalhes, inclusive nomes, detalhes completos…só estou aguardando um jornalista corajoso, do tipo Collor (!!!) para aguentar o tranco…

Em seguida, passo ao relato do meu livro sobre a guerrilha, de 1968, quando cheguei a Brasília pela segunda vez, e até 1974, quando saí. Depois de mais de 30 anos calado sobre a luta (era assunto sigiloso pelo EB), fui levado a me defender pela infâmia dos revanchistas…

 

Minha Relutância 

“A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia,

Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando”

– Camões –

No assalto à casa de Ademar de Barros, os terroristas, hoje já identificados, levaram mais de 2,5 milhões de dólares.

Nos documentos de Carlos Marighela, morto em São Paulo, em novembro de 1969, teve-se a primeira alusão à “grande área” de treinamento de guerrilha que estava sendo preparada. Desde então, análises, estudos, planejamentos, foram elaborados pelos órgãos de inteligência com o intuito de identificar possíveis áreas.

Durante a luta armada, foram eliminados os bandidos que resistiram à voz de prisão, os maus brasileiros que optaram por palavras enganadoras de conhecidos e antigos comunistas; quem não resistiu à voz de prisão foi preso, julgado, cumpriu pena e foi solto. Até mesmo quem matou à traição e foi condenado à morte, depois amenizada para prisão perpétua, foi solto e ocupa atualmente cargo de juiz do trabalho…

As raposas velhas do PC do B desviaram os jovens, os iludiram e os abandonaram à própria sorte nas selvas do Pará, fugindo antes do primeiro tiro e aboletando-se no conforto das cidades. Nunca trabalharam. É preciso que seja ressaltado tudo isso: eram velhos conhecidos comunistas, subvencionados por nações infelicitadas por um regime de escravidão total, que pretendiam nos impingir.

Relutei bastante em tornar público este texto.

A insistência dos amigos para que eu mesmo escrevesse sobre minhas experiências, desde que inseri na Internet um relato sumário sobre o assunto, principalmente para corrigir os fatos vergonhosamente deturpados e difundidos pela imprensa mentirosa, comprada e descaradamente revanchista (eles não queriam me dizer:“Escreve, Asdrúbal velho de guerra, enquanto está vivo…”).

Mantive silêncio durante todos esses anos, mesmo no meio militar, principalmente por ser assunto classificado de secreto pelo Exército. No entanto, aqueles que tinham a obrigação de oficialmente rebater os ataques à Instituição, não o fizeram. Acovardaram-se. Esqueceram o principal, que a disciplina e a hierarquia não têm apenas um sentido. Assim, fui impelido naturalmente a entrar nesta“nova” luta, que eu tinha deixado já ganha, há muito,“na esfera de minhas atribuições”.

Antes de cursar o IME (Instituto Militar de Engenharia), eu já era Paraquedista, tendo realizado todos os cursos, inclusive o curso pioneiro de Forças Especiais, onde fui aluno-instrutor de comunicações. O IME foi para mim, além de um acalentado e antigo sonho de adolescente, um “carro de fogo”, uma prova inesquecível; foram quatro anos de estudos com professores de elevadíssimo nível intelectual, a maioria com doutorado no exterior, principalmente no MIT (Massachussets Institute of Technology) e na França. As comunicações, com a evolução tecnológica, passou a se denominar telecomunicações e, acoplada à informática, passou a ser a Telemática. Nenhuma célula de combate prescindirá de um eficiente sistema de comunicação.

Nos cursos da Escola de Paraquedistas, fui iniciado no salto-livre, necessário para o cumprimento de operações especiais, estratégicas. Minha especialidade e preferência, porém, era guerra na selva. Permaneci cerca de seis anos na Divisão de Paraquedistas, saindo para o IME, onde passei quatro anos. Em seguida, fui servir em Mato Grosso, tendo como missão reestruturar a extensa rede-rádio da 9ª Região Militar, inclusive a de fronteira, permanecendo cerca de três anos em atividades, desde os postos de São Simão, Casalvasco, Fortuna e Porto Esperidião (próximos às nascentes do Guaporé), Ilha da República, Bela Vista do Norte, até Mundo Novo, em frente a Guaíra, Paraná. Meu ambiente era, portanto, de muita selva, pantanal exuberante, rios Paraguai e Paraná, grandes atividades cinegéticas nas horas livres e enquanto aguardava providências previstas no PERT do projeto. Assim é a atividade do militar. Quantos engenheiros civis aceitariam tal missão nas condições oferecidas a um Capitão?

Em seguida, realizada a missão em Mato Grosso, em 1968 cheguei a Brasília, para o CIE (GabMinEx/CIE/ADF).

Em novembro de 1969, Marighela foi morto em São Paulo, deixando as pistas da “grande área” de preparação da guerrilha rural. Onde seria esta grande área?

Minhas atividades eram na Seção de Planejamento (mudança do Ministério para Brasília), estabelecimento das comunicações (microondas e Rede do Alto Comando, ligando Rio de Janeiro, Brasília e os Comandos das Regiões Militares) e participando, com o Coronel Torres, da organização da Seção de Operações, para enfrentar a guerrilha rural. Cumprindo o planejado, saímos em busca dos discípulos de Marighela, mas demos de cara com os discípulos de um tal de “Barba Roja” Piñeros Losada, chefe da ala para a América Latina do serviço secreto de Cuba, companheiros de “Daniel”, do famoso e desafortunado MOLIPO, ou Grupo Primavera, Grupo da Ilha, de 28 terroristas que estavam sendo preparados em Cuba. Era o desencadeamento do plano de irradiação do comunismo na América Latina, financiado e orquestrado adivinhem por quem?

Começava maciçamente a luta na área rural. E para ela já estávamos bem preparados há muito tempo.

O destemido “companheiro de armas” de Dilma Roussef, vulgo “Estela”, no POLOP, ou “Luiza”, no COLINA, ou “Patrícia”, na VPR, ou “Wanda”, na VAR-P, nome verdadeiro José Dirceu, e de fachada “Daniel”, ex-ALN /MOLIPO, agora no PT (agora nas grades), era um deles, embora naquele tempo tivesse horror de armas. Para nossa sorte, essa era a espécie de “guerreiros” que pretendiam tomar o poder no Brasil pelas armas.

Somente tropa especializada saberá tirar proveito das revelações aqui feitas.

“A disciplina militar prestante, não se aprende senhor na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, mas sim vendo, tratando e pele- jando” .

O assunto que relato é forte e polêmico, fatos reais, tendo em vista principalmente os nossos padrões e costumes cristãos. Tentar explicar, jamais; apenas me limito aos fatos.

Os aspectos táticos e estratégicos de combate na selva, sendo revelados os procedimentos adotados fora da doutrina, são assimiláveis apenas na prática por unidades de forças especiais; são praticamente inatingíveis por tropa não-profissional, o que, justamente, faz a diferença entre elas.

No Araguaia, mais uma vez ficou evidente que a guerra de resistência não tem regras fixas e seus princípios não são dogmas invariáveis e, portanto, em consequência, o mesmo vale para o seu combate.

As implicações psicológicas e éticas de tais fatos são aspectos difíceis de aceitar, analisar, encarar, ao menos compreender ou mesmo justificar; estão, por isso, acima dos objetivos deste simples trabalho. Só presenciei um caso de desequilíbrio psicológico na mata, em combate, passageiro. Tomei conhecimento, porém, de outros episódios semelhantes, esporádicos. Apenas quero lembrar que eles, os guerrilheiros, não estavam lá para brincadeira… pensem bem nisso.

Reconheço que a simples leitura deste meu pequeno texto não será de fácil compreensão para quem está se iniciando no assunto “Guerrilha do Araguaia”. Outras leituras terão que ser feitas por quem se interessa pelo assunto. Certamente, muitos outros livros, com novos fatos e testemunhos, haverão de surgir, uma vez que os participantes ainda não iniciaram suas colaborações.

Ser Soldado pode englobar todas as qualidades morais e intelectoais, desde o conhecimento dos regulamentos, da disciplina, do treina- mento normal intramuros do Quartel, enfim, a dinâmica da vida normal na caserna, sua ética rígida, sua disciplina hierárquica fundamental e inquebrantável, base da profissão das armas.

Combatente, é aquele que tem treinamento apropriado de combate. Será guerreiro se tiver vocação e se preparar precípua e intensamente para combater, mesmo que a hipótese de combate real seja longínqua; se tiver a oportunidade de enfrentar o inimigo e derrotá-lo, estará plena- mente realizado profissionalmente.

Tudo começa, obrigatoriamente, como “troupier”, o militar de tropa, nas inúmeras atividades, algumas até mesmo burocráticas, mas passageiras, e a instrução diária no Quartel. Nossa atividade é silenciosa, porém árdua.

Na tropa, o militar revela exatamente o que será para o resto do seu tempo na caserna, até, e principalmente, se chegar ao generalato. É só analisar a vida dos grandes líderes. As que tive oportunidade de analisar de perto, no convívio diário ou em unidades próximas: Marechal Rondon (Patrono da Arma de Comunicações), General Penha Brasil, General Moniz de Aragão, General Orlando Geisel, General Médici, General Arnaldo Bastos de Carvalho Braga, Coronel Carlos Sérgio Torres, Coronel Jarbas Gonçalves Passarinho e, finalmente, todos os oito Turbranautas (AMAN – 1952) diretamente ligados à luta, de fato todos de conduta irrepreensível e excelentes guerreiros (hoje, já podemos citá-los nominalmente, uma vez que a própria instituição forneceu suas folhas de alterações aos bandidos):  DeMarco, Clidenor, Cinelli, Menna Barreto, Romão, Iv Sá, Idino  e eu.

Mesmo o leitor militar terá que “recalibrar” vários conceitos face ao que aqui será revelado, reconfigurar sua maneira de encarar o combate desde a sua preparação. Embora eu tenha me esforçado para evitar empregar termos militares, é impossível evitá-los todos.

Minha equipe tinha um efetivo considerado grande, nunca maior, porém, de 18 elementos, mas na mata quem atuava comigo no patrulhamento eram dez apenas que, por tradição, era denominado GC (Grupo de Combate).

Tudo recaía nas maiores interrogações: como poderia ser mantida na selva uma grande equipe, sem suprimento continuado? Para que “inventar” novos armamentos e instrumentos? Na parte de planejamento, enquanto transcorria a Operação Sucuri, todas, ou quase todas, as minhas sugestões foram aprovadas, principalmente as referentes às ações junto às fábricas do Exército, como a de Itajubá, onde eu tinha vários colegas de turma da AMAN em postos de chefia, não precisava seguir os famosos trâmites legais, bastando oficializar o pedido de apoio para o projeto. Daí, nasceu o silencioso para a carabina Itajubá 22, a quem atribuo uma larga margem de responsabilidade pelos êxitos das missões. Nas Diretorias envolvidas diretamente na luta, como, por exemplo, a de Comunicações (DCom), embora não tenha podido evitar algumas in- compreensões, a cooperação consciente foi alcançada, com o reconheci- mento de todos. O equipamento do sistema-rádio Racall (inglês), destinado aos paraquedistas, devido à burocracia da DCom, tive que mandar buscar diretamente da fábrica, em Londres, sem passar pelos controles burocráticos (termos de recebimento e exame de material, termos de distribuição e inclusão em carga, etc.). A grande quantidade de baterias necessária para a manutenção da escuta permanente na selva, foi outro problema digno de nota. Tudo deu certo, no entanto. É necessário analisar o problema para compreendê-lo, o que não vou fazer aqui.

As ações na selva começaram como operações de informações, simples buscas de informes. Ninguém imaginava que os terroristas estariam dispostos a tudo, ninguém poderia imaginar a que ponto o fanatismo poderia levá-los.

Na realidade, em Brasília, antes de 1970, não era sentido o verdadeiro clima de guerra do combate aos terroristas nas grandes cidades. Brasília, na época, era uma ilha de tranquilidade.

Nas primeiras missões na mata, não pude evitar a fuga dos “paulistas” que encontramos por lá. Iria eu atirar em desconhecidos só por estarem supostamente na mata treinando guerrilha? E se fossem simples moradores? Mesmo diante das afirmações de Pedro Albuquerque, fugitivo da área, que ali estavam seus companheiros de treinamento?

De sã consciência, jamais seria uma boa escolha de procedimento e jamais passou pela minha cabeça adotar tal ação.

Mas, ao ressurgirem em outro local da mata, eu tinha a obrigação moral de ir até eles, claro. E, assim, a coisa foi se sucedendo num crescente surpreendente e, para mim, inexorável, uma vez que mexi numa verdadeira casa de maribondos, vespeiro vermelho preparado por conhecidas“ putas-velhas” do comunismo internacional. Jamais poderia eu deixar de continuar naquela luta.

 

COMBATE COM O GRUPAMENTO MILITAR 

“A paz queremos com fervor. A guerra só nos causa dor. Porém, se a Pátria amada for um dia ultrajada, lutaremos sem temor”.

 

Num de seus livros mentirosos, Elio Gaspari, o parmesão, escreveu que o caso ”Sônia” (a seguir) foi o episódio mais notável da guerrilha, distorcendo propositalmente os fatos e enaltecendo o fanatismo da terrorista ensandecida e espumando de raiva, ódio doentio.

Mais um erro grosseiro causado por muita má fé.

É, talvez, o mais inusitado, por se tratar de mulher e de fanatismo fora do comum, extremado. Mas o combate com o grupamento militar da guerrilha foi muito mais importante, muito mais sangrento, tendo desmoralizado o movimento do PC do B: eles perderam em um único combate, quatro elementos dos mais importantes (um deles entrin- cheirou-se atrás de uma árvore e conseguiu fugir em desabalada carreira depois de cessado o tiroteio, pois estava sem arma na mão e ninguém atirou nele), todos com cursos na China e em Cuba. O que fugiu, soube- mos depois, era o João Araguaia, desapareceu na mata. O “Velho Mário” revelou, na ocasião em que recebeu a notícia da morte dos guerrilheiros, que um deles, o Zé Carlos (“Zequinha”), era seu filho, André Grabois, fato que era desconhecido de quase todos, escondido pelo Velho Mário, por motivos óbvios (o cara era incompetente, analfabeto total, mas mantido no comando de um grupamento…). O Paulo Paquetá, médico, que o diga.

O combate do dia 25 de dezembro de 1973, o chafurdo de Natal, também foi muito mais importante que um simples combate não terminado, em que uma guerrilheira fanática acerta dois militares.

Com o combate contra o grupamento militar da guerrilha, os bandidos ficaram desmoralizados e, na realidade, foi o começo do fim, passando pelo chafurdo (inegavelmente o mais importante de toda a luta) até a morte de Osvaldão.

O grupamento militar, comandado por André Grabois, filho de Maurício Grabois, era o mais selecionado, o melhor, nas palavras do próprio Velho Mário em seu diário. Por este motivo, fazem pouco alar- de do ocorrido, dizendo que foram emboscados, que estavam famintos, embora saibam realmente o que aconteceu, uma vez que o que conseguiu escapar deve ter relatado o fato. Uma emboscada fica demonstrado impossível no caso, pois numa perseguição na mata não se sabe onde eles vão passar.

Tudo se originou no assalto ao quartel da PM de São Domingos, ao alvorecer de um determinado dia no final de setembro ou início de outubro de 1973, pegando a guarnição de surpresa.

A Operação Sucuri estava terminada e as ações na mata iam ser iniciadas no dia 3 de outubro. Aproveitando a “calmaria” na mata o grupamento militar da guerrilha, comandado por André Grabois, o “Zequinha”, destruiu uma ponte na Transamazônica e ao alvorecer pegaram todos ainda dormindo no quartel. Incendiaram todas as instalações, casa principal, refeitório, almoxarifado, corpo da guarda, casa da estação de rádio, gerador, paiol, levando todo o armamento (fuzis, revólveres), toda a munição e todo o fardamento, todo o dinheiro e material individual, agredindo com coronhadas, torturando e humilhando os militares, inclusive deixando todos de cueca. Uma ação audaciosa e reveladora da

grande confiança que possuíam até então. Para eles, reinava inteira cal- maria na mata; para os militares o movimento era febril: ia ter início, finalmente, a ação contra os terroristas.

O Zé Carlos, ou Zequinha, ou André Grabois, deixou um recado com o tenente comandante do destacamento: “Que ninguém ouse nos seguir, pois agora estamos bem armados e o pau vai quebrar…”. E quebrou mesmo, mas para o lado deles, principalmente. Deixou também um comunicado à população, tudo assinado por “Zé Carlos – Comandante do Destacamento A”.

O assalto ao Quartel teve grande repercussão entre a população local, mas foi contraproducente para os bandidos porque os moradores temiam as conseqüências naturais que adviriam. Nas cidades adjacen- tes, também houve muita perplexidade, receios e histórias mal contadas. A notícia chegou a Marabá imediatamente; era o que chamávamos “telégrafo cipó”, ninguém sabia como e quem a trouxe. Recebi ordem para ir até lá com minha equipe,“verificar” o que realmente houve e to- mar as providências necessárias. Fomos de viatura até a ponte destruída (incendiada), atravessamos o rio à vau pois ainda era época seca, embora as chuvaradas repentinas já começassem.

Chegamos a São Domingos por volta de meio-dia, sob forte calor. Pedi que os homens do povoado viessem falar comigo, para relatarem o que aconteceu, quantos eram no grupo de terroristas e quem o chefiava. Vieram uns vinte moradores. Informado de tudo, expliquei a gravidade da situação e ressaltei que não podíamos deixar de ir atrás do bando. Pedi dois mateiros voluntários para auxiliar seguir os bandidos na mata. As mulheres ficaram de longe, só escutando e observando, mas se aproximaram, vendo que a reeunião tinha terminado. Depois de alguns minutos, eles conversando com as mulheres, o João Pedro me trás a decisão: ninguém se apresentou para ir, com medo das mulheres ou dos bandidos (não sei qual o medo maior).

Vi-me obrigado, então, a ameaçar levar todos. Não tinha alternativa, a não ser que “escalasse dois voluntários” pelas aparências, com risco de opção por meros agricultores de gerimum ou macaxeira. Um bom mateiro teria que se dispor a ir e, como eu não teria garantia de sua competência na mata, deveriam ir dois. A designação tinha de ser deles próprios, lógico.

Como é que eles se negavam, quando os maiores interessados eram eles próprios, que tiveram o posto policial atacado e destruído? Sem polícia para assegurar a ordem, a área seria de ninguém. Depois de muita conversa, apresentaram-se dois mateiros dispostos a irem conosco.

Quando nos embrenhamos na mata fechada já pude vislumbrar toda a dificuldade que seria aquela missão. Após duas horas de marcha, aproximadamente, paramos na beira de um riacho.

Meu problema era grande, pois viemos sem a equipe de apoio e só poderíamos aguentar na mata uns dez dias, no máximo, devido ao pouco sal disponível. Com a batida nítida na trilha, pois além de muito carregados eles iam quebrando muito graveto, completamente confiantes, relaxados, eu sabia que só iríamos voltar quando os encontrássemos, de qualquer maneira. Teríamos que caçar de esbarro para sobrevivência, pois não poderíamos perder tempo procurando caça. Numa segunda parada para descanso, a última do dia, na beira de uma nascente, chamei os guias e expus o problema, no que eles concordaram, informando que a região era de muita caça; marchando silenciosamente poderíamos aba- ter muitas aves e pequenos animais com a 22.

Os bandidos, com a carga pesada que levavam, marchavam devagar, parando muito.

Vários dias seguindo-lhes as pegadas, a despeito das fortes pancadas de chuva que mascaravam as pegadas, obrigava-nos a diminuir a marcha, sabíamos que avançávamos seguramente a cada dia, o que mais ainda aumentava a disposição de encontrá-los, fossem quais fossem as dificuldades. No final de alguns dias, já estávamos com muita fome, pois a ração de combate estava no fim e como tínhamos trazido pouco sal, o churrasco de caça, geralmente mutum insosso ou jaboti completamente sem sal, não ficava apreciável, ou melhor, já estava ficando intragável, principalmente de manhã, como primeira refeição.

Foi quando no alvorecer de um certo dia, antes do café, escutamos três tiros fortes de fuzil, tão nosso familiar e a bulha feita por porcos atingidos, guinchando. Eram eles, a menos de 500 metros, na mata. O confronto só foi acontecer cerca das 15:00 hr. Nesse dia não comemos nada e a sede era grande, pois não atravessamos nenhum córrego. Mas, diante do vislumbre do inevitável, nos esquecemos de tudo.

Eles deram os três tiros às 06:00 horas, caçando porcos monteiros, fazendo uma grande algazarra. Enquanto progredíamos sobre eles, houve três mudanças de posição: a inicial dos tiros nos porcos, a de preparação da caça (esfola e limpeza, quando fizeram fogo para queimar os pêlos) e a que fizeram em seguida para feitura de dois cassuás para o transporte da carne, pois ficaram muito carregados. Inicialmente, partimos para o local dos tiros, claro. Eles mudaram de posição e pegaram outro rumo, sempre conversando em voz alta; mudamos o rumo também. Eles pararam e fizeram fogo. Recomeçaram a marcha e em seguida pararam por algum problema, sempre conversando alto. Aí nós demos a volta e os atacamos pela frente, na direção em que estavam marchando, pegando-os de surpresa.

Equipe em formação de combate em linha, eu sem poder mais rastejar devido à proximidade de um guerrilheiro, levantei-me e gritei a ordem de prisão, obtendo como resposta um tiro dado por um deles que estava de vigia mais atrás e que não tinha sido visto. O revide foi inevitável, imediato. Mero suicídio, como costumavam fazer.

O tiroteio foi intenso e prolongado; quem se mexia tomava bala. Terminado o combate, silêncio na mata, estavam mortos: “Zé Carlos” (André Grabois), “Alfredo” (Antonio Alfredo Lima), e “Zebão” ( João Gualberto Calatroni), todos identificados pelo único sobreviven- te, o “Nunes” (Divino Ferreira de Souza), que estava muito ferido, com um projétil que lhe atravessou o corpo transversalmente, entrando no quadril de um lado e saindo na axila do outro lado, quase arrancando- lhe o braço. Mas foi ele quem deu os nomes dos mortos e a importância do grupo, embora falando com muita dificuldade. À noite, mal podia falar. O que conseguiu fugir era o “João Araguaia” (Demerval da Silva Pereira).

Do nosso lado, um soldado com ferimento na perna, julgado a princípio que tinha sido atingida a femoral e outro soldado com distúrbio psicológico (vomitando seguidamente e aparvalhado, parecendo estar sonâmbulo).

Conforme combinado via rádio, os mortos e feridos e todo o material deveriam ser transportados para o sítio da Oneide e entregues ao pessoal do PIC (Pelotão de Investigações Criminais) para a devida identificação.

O local do combate não era identificado nas cartas e as árvores eram muito altas de modo que o helicóptero não podia baixar.

No dia seguinte, bem cedo, iniciamos a marcha. Foram 6 horas através mata, extremamente difícil, com os cadáveres, feridos e carga sendo transportados em muares que estavam abandonados pelos moradores, e que foram trazidos pelos guias. A munição de fuzil foi destruída, jogada num buraco na mata. Os cadáveres, expelindo sangue e soro, ao passarem na folhagem faziam o retorno dos galhos na nossa cara, de modo que chegamos no sítio da Oneide completamente impregnados, emporcalhados. Além disso, havia um ferido gravemente (o Nunes); o soldado ferido podia andar, mancando, apoiado numa muleta improvisada de pau com forquilha. Foi, realmente, uma dura missão. Começamos a marcha ao raiar do dia e chegamos no sítio da Oneide com os helicópteros já pousando, ao meio-dia, como fora combinado via rádio. Tinham que ser identificados todos eles, claro. O pessoal do PIC ficou com um helicóptero e voltamos no outro, levando o Nunes, para os primeiros socorros em Marabá. Devido à gravidade dos ferimentos, ninguém acreditava que ele se recuperasse. Dias depois, soube que ele morreu.

Dizem os comunas, que o mataram na Casa Azul. Quando Pedro Albuquerque tentou o suicídio na prisão em Fortaleza, se tivesse morrido, estariam dizendo a mesma coisa. Caso o Nunes não tivesse morrido, teria ficado aleijado, pois o projétil destruiu a articulação do braço com o ombro.

Dessa maneira, estava destruída a comissão militar da guerrilha, o mais importante dos combatentes deles.

Numa reportagem na imprensa, um mateiro afirmou que a tropa do Exército já chegava atirando.

Primeiro, os mateiros iam ficando para a retaguarda na iminência do confronto. Ficavam quietinhos lá atrás até o cessar fogo.

Segundo, como os bandidos estavam fardados, tendo o Zé Carlos o gorro de 2º Ten da PM do Pará na cabeça (caki com estrela vermelha), teria obrigatoriamente de ser dada a voz de prisão para certeza de quem se tratava, invariavelmente.

Terceiro, na área agiam vários grupos de combate, principalmente em reconhecimento, o que tornava imperiosa a identificação para não haver acidente entre tropas amigas. Jamais poderia haver precipitação no encontro na mata. E nunca houve, que eu saiba.

Se a intenção fosse realmente acabar com eles, de qualquer maneira, o João Araguaia não teria sido poupado; estava sem arma na mão e ninguém atirou nele.

O mais gritante de tudo, que anula a versão de já chegarmos atirando, é que seria muito mais fácil levar prisioneiros marchando algemados pela mata do que transportar cadáveres em lombo de muares, exudando continuamente na nossa cara, pois íamos tocando os muares.

Dificilmente o local dos combates, em mata fechada, permitia o pouso de helicóptero. Inclusive, eles continuariam carregando as próprias cargas que roubaram. As informações que poderiam fornecer também eram de suma importância e foram perdidas, uma vez que o sobrevivente, o “Nunes”, muito ferido, não estava em condições de falar na manhã seguinte. Ele apenas deu, logo cessado o tiroteio, o nome de cada um componente e da importância do grupo, ainda com sangue quente, logo terminado o combate. Sofreu muito durante a noite e no caminho tendo chegado muito mal no sítio da Oneide, onde foi medicado sumariamente.

Tanto no caso da descoberta do local da guerrilha, como em todos os demais, era dada a voz de prisão. Os três elementos avistados (dois homens sem camisa e uma velha) no final da trilha de Pará da Lama, e que escaparam fugindo para a mata, podiam ter sido alvejados facilmen- te, tal a proximidade a que chegamos, uns 80 metros. De FAL, era tiro e queda.

O mesmo poderia ter sido feito com o “Geraldo”, que inclusive temtou fugir e poderia ter sido atingido facilmente.

O Pedro Albuquerque está vivo, em Fortaleza, CE, turisticando frequentemente ao Canadá (como é bom ser comunista…).

O caso ”Sônia” (a seguir), demonstra de maneira insofismável este procedimento das patrulhas, uma vez que ela poderia ter sido alvejada mortalmente ao tentar puxar a arma, mas foi preferido deixá-la ferida, após 3 ordens seguidas de 3 advertências sucessivas.

No meu entender, esta era a hora do “Velho Mário” desencadear a retirada, a única ação lógica que lhe restava. Principalmente em respei- to aos seus comandados. Depois, repetiu o erro quando a “Sônia” caiu. Aquela decantada “vitória” no caso ”Sônia”, na qual “vibrou” e elogiou o fanatismo da pobre e infeliz companheira, na realidade selou a sua derrota e morte; ele não teve a capacidade de reconhecer o grande erro de avaliação, isto é, cantou uma vitória totalmente impossível antes de tempo. Esqueceu uma regra básica: nunca entrar numa guerra sem um plano de retirada; jamais entrar numa guerra sem saber como sair dela. O jornalista Luiz Maklouf Carvalho, durante entrevista comigo, mostrou uma reportagem publicada em um jornal antigo, em que um morador, conhecido como “Vanú” (Manoel Leal Lima), de São Domingos, Transamazônica, declarou que foi guia do Exército no combate em que morreu o “Zé Carlos” (André Grabois). Não o reconheci na foto nem lembrei dele como mateiro. Nas declarações de “Vanú”, dentre as feitas evidentemente com objetivo de agradar o interlocutor tendencioso, além de muita imaginação, ele acertou alguns detalhes que, julguei, ele tivesse ouvido de Luiz Garimpeiro e Antonio Pavão, seus vizinhos em São Domingos e que foram os mateiros que mais serviram à minha equipe. Mas, assim mesmo, resolvi consultar o Cid por e-mail. Eis a res-

posta:

“… Mas, vamos ao que interessa: no caso do “Vanú”, era baixinho, uns 35 a 40 anos, não sei bem, acho que na mata as pessoas aparen- tam maior idade. Mas lembro que atuou em uma de nossas últimas missões, me ficou na lembrança devido ao fato de que atuou muitos dias reclamando de um problema no joelho, e que o atrapalhava no andar. Não sei porque ele foi escolhido, estando naquela situação para andar. Quanto ao “Vanú” dizer que eu mandei enterrar corpos, é uma gran- de mentira, mesmo porque uma coisa que jamais passou pela minha cabeça foi a de me preocupar com os corpos do inimigo. Sempre achei que era problema deles, tanto que já escrevi diversas vezes sobre isso e declarei que se fosse para enterrar o inimigo o Exército teria levado um Pelotão de Sapa, o que não fez. Nossos mortos estão bem enterrados e lembrados com respeito e carinho, o deles era problema deles, se não os recuperaram, com certeza alguma onça o fez”. 

Jamais eu levaria para a mata alguém estropiado, nem militar nem civil, mormente o mateiro, pois andávamos o dia inteiro, dia após dia, como cantiga de grilo… Ainda mais numa missão prolongada, em que teríamos de andar muitos dias na mata, e reconhecidamente perigosa pelo número de guerrilheiros que informaram compor o grupo, agora já bem armados de fuzil e com muita munição.

“Vanú” pode ter sido mateiro daquela missão, o que não foi comfirmado pelo Cid, por sinal uma das mais difíceis missões dentre todas, mas, pelas mentiras que disse, perdeu a credibilidade. De tudo que declarou, só acertou Cid e Adulpro (que muito bem pode ser Asdrúbal); muito pouco proporcionalmente ao que errou. No meu entendimento, acho que ele deve ter ouvido as conversas dos dois guias, que, aliás, eram da mesma vila de São Domingos. Mentiu muito. Só poderei confirmar que um dos guias era o Vanu depois de conversar com ele. Fica tranqüilo, Vanu, que da próxima o Adulpro se lembrará de você.

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COMBATE COM O DESTACAMENTO “A”

 “Com ânimo forte, se for preciso, enfrenta a morte. Afronta se lava com fibra de herói de gente brava“ – Guerra Peixe 

 

Incidente com a guerrilheira Lúcia Maria de Sousa, a ”Sônia”.

 

“Atirar em mulher é muito difícil. Temos que mudar as formas das silhuetas no stand de tiro…”. 

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito Se de humano é matar hûa donzela…

 

O Boletim Interno nº 15-Reservado, do Gabinete do Ministro do Exército, publicou a ocorrência:

“No dia 24/10, cerca das 17:30 horas, quando foi localizado um aparelho subversivo rural ao Sul da localidade de Metade, próximo à ro- dovia Transamazônica, no Estado do Pará. A equipe do CIE envolveu- se em combate, tendo sido ferido o Major Licio Augusto Ribeiro Maciel.Em conseqüência, seja providenciado o Atestado de Origem correspon- dente”.

Transcorria um período de paz na área, final da Operação Sucuri, entrando o mês de outubro de 1973.

Sombra e água fresca, a paz continuava para eles na mata, uma vez que os militares, “derrotados”, tinham se retirado. Para nós, atividade febril: estava começando a fase de caça aos guerrilheiros, que teria de ser final, a dos combates na mata, já que eles não aceitaram a proposta para se entregarem.

O combate com o grupamento militar tinha sido encarado pelo comando da guerrilha como pura falta de sorte e considerado como resultado de um grande descuido dos guerrilheiros. Estavam calmos, continuavam confiantes.

A“Sônia” fazia parte de um numeroso grupo, parte do destacamento A comandado por Paulo Rodrigues (depois confirmado, de dezoito elementos). Era o destacamento mais ao Norte da área, o mais perto de Marabá e o mais importante, por englobar o comando militar da guerrilha com seu grupo de segurança, já praticamente abatido, que era co- mandado por André Grabois.

Tínhamos informações seguras que estavam se deslocando na área, possivelmente em treinamento. Inicialmente, marchamos para o miolo da área. Depois de vários dias de caminhadas em grandes círculos pelo interior da mata, começamos a encontrar cada vez mais sinais de gente trilhando na mata e rastros nos pátios das casas abandonadas. Até que já tarde de um certo dia, quase escurecendo, deu-se o encontro. Está- vamos seguindo um grupo na mata desde cedo, quando encontramos suas pegadas nítidas, frescas, numa trilha bem batida, sinal de que mui- tos tinham por ali passado recentemente. Fomos atrás e estávamos nos adiantando, avançando, ganhando terreno, eles andavam despreocupa- dos, às vezes se dispersando na mata. Nós marchávamos firme e silen- ciosamente.

Cerca das 17 horas estávamos entrando em terreno lamacento, mata fechada, próximo a um riacho. Diminuímos o passo. João Pedro achou um coturno marrom escondido numa moita.

O inimigo estava muito próximo, as pegadas na lama já não tinham folhas caídas por cima, eram bem frescas, nítidas. Dessa vez o anoitecer na mata não iria nos obrigar a desistir de pegá-los.

Dei o sinal e começamos a abrir o dispositivo de combate em cunha, pelo formato do terreno, com um rio à nossa direita.

Os guias foram ficando para a retaguarda.

Avançávamos lenta e cuidadosamente, os alas fora da trilha, sem fazer barulho.

Logo em seguida começamos a escutar vozes. Depois, ouvimos assovios.

Eles estariam esperando outros guerrilheiros? Procuravam conta-

to?

Não tínhamos tempo a perder. O encontro era iminente e, em determinado momento, subitamente um deles voltou pela trilha e eu fiquei quieto, escondido atrás de uma moita. O cara veio devagar, ficou na minha frente, do outro lado da moita, divisei sua camisa azul. Ele procurando escutar algo, cabeça erguida; eu agachado, quieto, respiração presa, dedo no gatilho, pude ver-lhe um buço ralo. Ou ele continuava pela trilha e daria de cara comigo depois da curva perto do riacho, ou voltaria.

Ele voltou; dei uns 5 passos rápidos até a curva da trilha e dei-lhe voz de prisão:“Quieto e mãos na cabeça!”.

Aí, ele se voltou assustado e, então, pude ver que era mulher. Estava a uns 15 metros à minha frente. Dei-lhe a ordem, voz de prisão, pela segunda vez; ela tentava desamarrar a aba do coldre, agachada meio de lado. Repeti mais duas vezes “Não faça isso!” ,“Não faça isso!”, à medida que ela tentava soltar o fecho do coldre para sacar a arma, enquanto agi- tava a mão esquerda para cima, tentando desviar minha atenção. Quem estava com ela, um pouco atrás, fugiu.

Após a terceira advertência, ela já com a arma na mão, vi que não havia outro jeito e atirei baixo acertando-lhe a perna. A guerrilheira, com o impacto, deu um salto e caiu gritando de dor. Fui rapidamente até ela e, enquanto procurava o revólver, ordenei-lhe: “Fica quieta, nós vamos te salvar!”. Ela chorava e gemia gritando, desesperada, segurando a perna ferida, sangrando muito, com o fêmur partido, visivelmente. Os companheiros dela tentam chegar mais perto e o tiroteio começa, violento. Eu ouvia os projéteis zunindo e o farfalhar na folhagem por cima de minha cabeça. Eles atiravam mais tentando retardar o nosso avanço enquanto recuavam rapidamente para evitar o encontro, procurando os abrigos em direção ao córrego, onde, na certa, nos aguardariam com grande vantagem. Além disso, na margem oposta a mata era bem mais fechada, com árvores bem mais altas.

Não achei o revólver dela em meio à densa folhagem, já bastante escuro na mata fechada. Eles continuavam fugindo e atirando. Atravessaram o córrego. Como anoitecia – a mata já ficando por demais escura – dei o sinal para a equipe parar e voltar; atravessar o córrego seria muita exposição ao inimigo. Difícil decisão, abandonar a perseguição depois de estabelecido o contato, sangue quente. Voltamos.

Aproximando-me da ”Sônia”, caída, já quieta, ela abriu fogo à queima-roupa quando me agachava para vê-la melhor. Tinha conseguido achar a arma. Caí desacordado. Curió, que vinha logo atrás de mim, foi atingido no braço. A equipe reagiu no reflexo, atirando no vulto, que era já bem difícil distinguir.

Agora, o relato de Cid.

“Você caiu e revidamos incontinenti, eu e Javali, atiramos nela por cima de onde você estava e avançamos cuidadosamente, sem nada com- binar, para o lugar onde ela estava. Mas ela se arrastara para dentro de uma moita e a pouca claridade, quase escuridão, impedia que a enxer- gássemos; nos separamos de vista, Javali pela direita e eu pela esquerda varremos uma área de uns quinze metros, ela não poderia estar longe, ouvimos um gemido, ela se arrastando, e partimos em sua direção. Chegamos juntos próximo a ela, deitada de barriga para cima, já em estado deplorável, ensangüentada, arma na mão direita. Rapidamente pisei em seu braço, ao primeiro movimento, impedindo que ela levan- tasse a arma e perguntei rápido, enquanto ela procurava pegar a arma com a mão esquerda: “Qual o seu nome?”. Com ar de deboche e muito ódio, ela respondeu aos gritos – “Guerrilheira não tem nome”. Eu e João Pedro a metralhamos, antes que ela conseguisse pegar a arma. 

Tínhamos sérios problemas pela frente, além dos tiros que eram dados em nossa direção pelos companheiros da ”Sônia”, embora do ou- tro lado do riacho, mas estavam por perto, se retraíram com o tiroteio e atiravam em nossa direção. Tínhamos de verificar a gravidade de seu ferimento e prestar-lhe os primeiros socorros. Mas, após verificar que você estava recobrando os sentidos, respirando, abrindo os olhos e se mexendo, o grande problema era que os helicópteros não tinham per- missão para voar a noite. Você sangrava, a bala que havia atingido o seu rosto tinha destruído a arcada dentária superior, mas não tinha saído, ou seja, estava alojada em algum lugar da cabeça, era tudo que podíamos deduzir de pronto. Era urgente conseguir socorro médico, você teria de ser tirado dali com toda a urgência. Os soldados, lembro o apelido de um deles, “Buceta”, apavorados, pois era seu primeiro combate, mas en- tendendo a necessidade de ser feito um transporte, cortaram um arvore fina mas suficientemente forte para sustentar uma rede, a sua própria, o colocamos na rede e regressamos a uma casa por onde havíamos pas- sado ainda de dia. Resolvemos seguir para São José, onde uma Toyota do INCRA poderia pegá-lo e levá-lo para Bacaba, às margens da Tran- samazônica. Se conseguisse chegar lá seja qual fosse o tempo gasto no deslocamento, estaríamos aumentando as chances de evitar qualquer infecção. Não tínhamos analgésicos, nem como desinfetar, a água não era confiável, certamente pioraria o caso. Javali Solitário ficaria na casa juntamente com o mateiro e outros soldados, tentando contato via rádio com Bacaba, para marcar o resgate em São José. Eu e mais três soldados seguiríamos transportando-o até São José. Curió, já sem dor no braço baleado, seguiu junto, mas pouco depois resolveu voltar e ficar com o Javali. Não me passava pela cabeça a distância a ser percorrida. O tempo gasto num deslocamento, não serve de referência, porque tudo depende dos obstáculos a serem transpostos e as cautelas a serem observadas, dependendo da missão e das possibilidades de um confronto, segundo os critérios de credibilidade do informante. Nessa altura você estava perfeitamente lúcido, mas não podia falar compreensivelmente. Não hávíamos caminhado 3 km e os soldados pediram para serem substituídos. Éramos quatro, eu e três soldados, ou seja, duas equipes. Fizemos a substituição. Nos primeiro passos, eu senti o drama, o soldado que fazia a dupla comigo era mais alto que eu, o peso tendia em maior quantidade para mim, os ombros doíam, mas saber que minha situação estava longe de se igualar a sua, agi como se ombro não fora meu, tínhamos de chegar ou chegar, não havia outra solução. Mais ou menos, o mesmo tempo decorrido da primeira rendição, chegamos a um riacho, falei para você que tínhamos de fazer um pequeno alto, para um descanso, a fim de poder prosseguir depois direto a São José, embora não tivesse noção de quanto faltava. Bebemos água, você não podia, fumei mais ou menos rápido um cigarro. Lembrei de seus avisos, “esse cigarro ainda vai lhe matar”. Os outros dois soldados assumiram. Pensava como eu aguentaria quando tivesse de fazer a rendição. A rede balançando, rolava o tronco com casca, esfolava o ombro, o meu já estava todo esfolado, os dos soldados não podiam estar diferente, mas ninguém reclamou, parei de pensar nisso e seguimos, ficamos ali no máximo seis ou sete minutos. Chegamos a São José, aguardamos não sei quanto tempo, mas chegaram duas Toyotas do acampamento de Bacaba, com médico e enfermeiros. A missão resgate se aproximava do fim. Os soldados os três olharam para mim, logo após colocá-lo na pick-up e o que tinha o apelido “da per- seguida”, disse, “porra, Cid , achei que nunca chegaria”. Mas chegamos, respondi. Entreguei você em Bacaba, foi a última vez que o vi, antes do término da guerra. Tínhamos noticias quase todos os dias de que você estava bem, fora de perigo e se recuperando “.

Quando comecei a ser carregado por Cid e por Javali, um de cada lado, já estava começando a recobrar os sentidos, tossindo e cuspindo lama misturada com sangue e pedaços de dente. A hemorragia me incomodava, mas não sentia dor; a área atingida estava dormente e eu zonzo pelo impacto a queima roupa. Ainda não tinha idéia do que tinha acontecido, mas tinha consciência de que tinha sido atingido no rosto e na mão.

A sangueira era grande, mas foi estancando naturalmente. A hemorragia maior era para dentro da boca, uma vez que o véu palatino fora atravessado, tangenciado pelo projétil; eu engolia ou cuspia e a língua passando no ferimento interno do céu da boca produzia muita saliva.

No grupo de subversivos estava um rapaz, morador da região, que relatou depois, quando foi preso, que eles tinham preparado uma emboscada, uma vez que estando eu sendo carregado numa rede armada entre um pau nos ombros de dois soldados, que passaram os fuzis para os outros. Esses fuzis ficavam batendo um contra o outro a tiracolo, o que fazia um barulho nítido de metal contra metal, que era ouvido a grande distância no silêncio da madrugada na mata. Esta parada para descansar (e fumar), citada no relato do Cid, foi salvadora: reinando silêncio, subitamente na mata, eles interpretaram como se tivéssemos pressentido a emboscada e fugiram. Teria sido uma dura experiência, para nós, devido à total surpresa.

Este mesmo rapaz declarou, cerca de um ano depois, já solto, livre, que voltou ao local do incidente 4 meses depois e viu a ossada da”Sônia” ainda lá, espalhada pelos bichos. E que avisou aos guerrilheiros, mas nada foi feito para resgatar a ossada, a menos de um quilômetro do local do destacamento A, onde, inclusive, ficava o“Velho Mário”.

Fui levado para a vila de São José, de lá para Marabá e, em seguida, para Belém, onde permaneci uns dez dias para me recuperar, principal- mente, da perda de sangue e do inchaço do rosto.

Depois, fui evacuado para Brasília, operado no Hospital das Forças Armadas para extração do projétil. Operação delicada, pois o projétil es- tava alojado no pescoço, próximo à coluna e eu poderia ficar paraplégico. Após um mês, fui submetido a uma pequena cirurgia corretiva na feia cicatriz do rosto.

Este foi o meu último combate no Araguaia.

Em Belém, imobilizado numa cama, sem poder fazer nada, os pensamentos voavam na minha cabeça. Embora soubesse que o fanatismo “transforma homens em verdadeiros tigres”, nunca imaginei tal realidade na minha frente, ainda mais partindo de uma mulher. A ”Sônia” não podia ter resistido à voz de prisão. Não havia a menor dúvida de que eu estava com total domínio da situação, com a arma na mão apontada para ela. O que ela fez foi puro suicídio: ela queria morrer. Mas eu não queria matá-la. Ela seria, além de tudo, muito mais útil viva, claro. Não me sobrou alternativa, mas ainda assim atirei baixo, acertando-lhe a per- na. Ela deu um grito e caiu feio, pelo impacto; pensei que estava vencida e minha intenção era continuar a perseguição aos outros do grupo que representavam real ameaça, pegá-los antes de escurecer. Ela não podia ter agido daquela maneira. Gemia alto e chorava em desespero.

Solicitaríamos o transporte por helicóptero no dia seguinte e ela seria levada e posta fora de perigo. Aí, então, iríamos para cima do restante do grupo, até pegá-los. O acampamento deles, soubemos depois, estava do outro lado do rio, bem próximo, menos de um quilômetro de distância. Se ela tivesse se rendido, talvez hoje estivesse viva e metida em alguma trapaça, em meio à quadrilha já tão bem identificada com a corrupção…

O Ângelo Arroyo, em seu relatório, dá conta de que o destacamento A correu um grande risco de ser destroçado.

Escreveu ele: “Se a patrulha não tivesse que prestar socorro a um militar ferido, teria havido o encontro, com resultado desfavorável aos guerrilheiros, com toda a certeza”.

Fui derrubado, mas a luta prosseguiu.

Eles espalharam que tinham matado um major e ferido um capitão. Justamente como a Sônia queria: ela dizia sempre que desejava matar gente graúda… soldado não interessava.

Pouco mais de dois meses depois, fui mandado de volta à área, já recuperado, aparentemente.

Esta minha volta para a área, creio, foi mais para mostrar que eu não tinha sido morto, como festejado e propalado pelos guerrilheiros. Tão especializados quanto eu, ou muito mais, estavam na área no mínimo 250 guerreiros de selva prontos e ávidos para entrar na mata e prender aqueles que não reagissem. E foi assim que aconteceu.

Fiquei nesse período só com as “perfumarias” das operações, realizando pequenos vôos com o Paquera, lançando panfletos nas áreas mais prováveis de serem lidos. Se algum deles leu, se arrependeu de não ter aproveitado a ocasião.

No grande combate seguinte, o do dia 25/12/73, seriam destruídos simultaneamente o destacamento A e o comando militar da guerrilha.

Estava, assim, praticamente dominado o movimento. Osvaldão, comandante do destacamento C, seria, então, o próximo.

Em conseqüência do ferimento no rosto, até hoje tenho seqüelas: perdi vários dentes, com a arcada abalada sem possibilidade de correção, véu palatino rasgado; fiquei completamente surdo do ouvido direito e uma sinusite crônica surgiu no rastro dos resíduos de chumbo deixados pelo projétil no osso. O tiro na mão, por sorte, atravessou a palma, não tendo atingido nervo nem osso algum. Mas, graças a Deus, superei tudo. Só agora, na terceira idade, começo a sentir o peso de um 38 na cara…

Com Curió, o projétil atravessou o braço, sem maiores conseqüências.

Escreverei um pouco mais sobre o guerreiro Curió, embora não haja necessidade.

Mas, posso acrescentar agora outras suas facetas desconhecidas ainda. Depois da luta, ele permaneceu em Brasília e foi escalado “porta- voz da guerrilha”. Depois, aderiu a militares e políticos pouco confiáveis, juntou-se à UDR, foi eleito deputado. E ficou famoso.

Em seguida, foi para Serra Pelada, onde mais uma vez arriscou a vida em meio a um mundo um pouco menos áspero, com milhares de garimpeiros muito “delicados e compreensivos”. Firmou-se mais uma vez o Curió, impondo sua autoridade num meio hostil.

Afirmou Elio Gaspari que este incidente com a ”Sônia” foi o episódio mais notável da guerrilha, enaltecendo o fanatismo da guerrilheira, o que demonstra o pouco apreço que tem pela exatidão do que escreve. Lúcia Maria de Sousa – a “Sônia” : os registros dão a ”Sônia” como negra; na verdade, ela era parda, feições características, com nariz meio achatado e lábios ligeiramente grossos. Cabelos cortados como homem. Estávamos separados por uma moita quando ela chegou perto e ficou escutando, com atenção, querendo identificar alguma mudança do ruído característico da mata; não deu para distinguir se era homem ou mulher. Já estava escurecendo. Deu para ver que estava com camisa azul e tinha um buço acentuado, como de rapaz novo. Devia ter seus 30 anos de ida- de. Aí, eu já poderia ter acionado a tecla do gatilho…

Os relatórios dão como sendo ela estudante de medicina e que abandonou tudo, para ingressar na militância do PC do B, sendo levada para o Araguaia, incorporando-se ao destacamento A do Paulo Rodrigues. Segundo Relatório do Ministério do Exército, Lúcia “foi morta no dia 24/10/73 em confronto com as Forças de Segurança ocorrido na selva entre Xambioá, GO e Marabá, PA”.

Pasmem, seu corpo permaneceu abandonado a menos de 1 km (um quilômetro) de distância do acampamento do destacamento A, onde ficava inclusive o comando militar da guerrilha, com o “Velho Mário” e seu grupamento de segurança, sem que fosse recolhido pelos guerrilheiros, a despeito dos diversos avisos dos moradores. O “Velho Mário” limitou-se a lamentar a morte de ”Sônia”, registrando em seu Diário, pois como médica era de grande valia para seus pupilos, inclusive e principalmente para ele próprio. E só. Os guerrilheiros só valiam para ele vivos; até mesmo quando seu filho foi morto, ele não foi ao local do combate nem mandou alguém na esperança de encontrar os corpos dos mortos ou alguma lembrança. Pelo menos não consta de seu diário esta providência. Somente hoje atrás de indenização para a família e outros lucros maiores, querem mostrar interesse na procura dos restos mortais dos guerrilheiros. Agora, eles valem ouro…

Por que não recolheram os restos mortais de ”Sônia” logo após o incidente, quando na área ainda reinava relativa calmaria? Eles ainda não sabiam que a Ordem de Operações já tinha sido dada.

A família de ”Sônia”, que mora em São Gonçalo, RJ, recebeu indenização de cerca de cento e quarenta mil reais em 2006.

A família do Cabo Odílio Cruz Rosa, morto por Osvaldão, covardemente, aproveitando que ele tomava banho no rio Gameleira, até hoje nada recebeu.

”Sônia” tinha seu valor, reconheço, era estudante de nível superior, só que, enganada, enveredou pelo rumo errado, de arma na mão, lutando para implantar no Brasil um regime escravo, comunista. Mas sua irmã ganhou uma boa indenização.

O Cabo Rosa, de grande valor e de grande potencial, que pretendia fazer carreira no Exército, escolheu o caminho correto, o da legalidade. Perdeu a vida no cumprimento do dever. Seus familiares nada receberam, além da enorme dor da perda do ente querido altamente injustiçado.

“À Pátria tudo se deve dar e nada pedir, nem mesmo compreensão”

– Siqueira Campos.

O Cabo Odílio Cruz Rosa será reverenciado muito em breve. Temos absoluta certeza.

Temos a obrigação moral de colocá-lo no pedestal dos heróis tombados na luta contra o comunismo.

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Depois que Collor, o caçador de marajás, ludibriou o povo e surrupiou os “culhões roxos”, as autoridades brasileiras tomaram chá de sumiço, até que apareceu o dr Joaquim Barbosa e o Delegado Moro, que empolgaram e recobraram as coisas…

 

 

 

 

 

 

Sobre liciomaciel

Velejador
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Uma resposta a COMBATE COM O GRUPAMENTO MILITAR DA GUERRILHA, afim de dirimir dúvidas… comuna tem merda rala na cabeça…

  1. Li, de ponta a ponta; relato admirável. Mas, me pergunto, onde ai encaixa Geisel, que sabidamente lançou as sementes do mal no Brasil quando pariu Lulla e o PT?

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