KRUM – Gustavo Barroso

(extraído do livro “A Ronda dos Séculos”– de
Gustavo Barroso, da ABL)

 

KRUM – O Vencedor

 

“Dans l´origine, l´homme
formé nu de corps et désprit se trouve jeté au hasard sur la terre confuse et
sauvage”. Volney – Les Ruines.

 

 

Nas reuniões funerárias à
sombra dos lepidodrendos gigantes, diante dos menhirs e cromlechs das
clareiras, Krum – os outros o chamavam na sua linguagem rude.

 

Ninguém brandia com mais
força a acha de sílex nem mais fundo enterrava a ponta da lança no peito do
urso espeleu.

 

Habitava uma caverna sobre
um planalto a cavaleiro do rio, cheio de esturjões e das florestas de cicas,
coníferas e fétos gigantes, povoadas por feras. De lá avistava o branco das
geleiras, que desciam das montanhas sempre enevoadas, entre morenas de
detritos, e grandes pradarias cobertas de ervas altas, em cujas lagunas
espadanavam água os hipopótamos perseguidos pelo machoerodus monstruoso.

 

À sua vista cúpida,
passavam grandes manadas de aurochs, varas enormes de javalis escrofas,
rebanhos de rangíferes e lotes de poltros selvagens.

 

Durante os dias quentes e
úmidos, percorria os lameiros e matagais espessos, sempre à espreita e à
escuta, estremecendo ao distante resfolegar do rinoceronte, que agitava os
caniçais, ao longínquo pisar do mamute, que fazia tremer o chão. Do alto das
árvores deixava cair o dardo de pau acerado ao fogo sobre o dorso dos bisontes,
que morriam num lago púrpuro.

 

Levantando-se dos juncais,
lançava um pedrouço cortante aos bandos de veados, rindo barbaramente, quando
um ficava a estrebuchar, ou derrubava as perdizes com um cacete, quando erguiam
o vôo rasteiro. E, se encontrava a pantera, não podendo esconder-se, fugir,
guindar-se às árvores, combatia-a heróico e solitário, peito à peito.

 

Seu corpo  baixo e grosso tinha a espantosa agilidade
dos símios. Seus músculos retesados eram mais duros e resistentes que os cipós.
Trazia em torno dos quadris uma pele felpuda de castor, ao pescoço um colar de
dentes recurvos e na grenha hirsuta espinhas de peixe, ossos finos de pássaros.
Torso, pernas e braços cobriam-se de cerdas negras e a barba derramava-se sobre
o peito, tufado e agreste.

 

Dormia num antro, sobre
folhas secas. Às vezes, levantava-se num susto, chegava à boca da furna. Ao
longe, um vulcão erupia com fragor, alanceando de chamas o espaço, deixando
escorrer pelas encostas lágrimas de lava. Milhares de animais fugiam,
assombrados, em furioso tropel. Gritos de homens medrosos vinham dos convales
clareados pelo fogaréu. Krum prosternava-se, porque a sua alma era cheia de
terrores desconhecidos e temia todos os espíritos ocultos: os que moram nos
anfractos das pedreiras, os que olham dos luzeiros dos céus, os que crepitam
nas labaredas da fogueira, os que roncam com o trovão, estalam com o raio,
atroam com as erupções e os que, mansamente, deslizam sobre as águas e as
ervas, na penumbra dos bosques e na face das penedias, almas dos que partiram
para a longa viagem da morte.

 

Outras vezes, leve ruído
despertava-o. Hienas penetravam devagarinho, mal roçando o saibro do solo.
Agachava-se, remexia o borralho que conservava o fogo e atirava um tição no
escuro da abóbada. A brasa alumiava o traço curvo da trajetória. Caía adiante
com um baque seco, espalhando fagulhas. As feras empinavam-se e galopavam em
atropelo até a saída, onde se dispersavam pela campina.

 

Antes de esgotar a provisão
de carne de rena ou de cavalo, passava dias inteiros a polir, repolir, afiar os
bordos das achas, das raspadeiras, das pontas das setas, dos furadores de
pedra, que lhe serviam de armas e instrumentos ou para trocar por plantas
medicinais e sementes comestíveis com os moradores de outros cantões. Também
esculpia nas placas de chifre de tarando rudes imagens de animais.

 

Ao luar, quedava-se à
entrada da gruta, olhando a melancolia da paisagem. Salgueiros cinzentos marcavam
o rumo do rio. A casca prateada dos olmos rebrilhava. Brumas elevavam-se das
cataratas, cujo ruído enchia a solidão. Urros de ursos, uivos de raposas
morriam no ar. Erguiam-se acima dos capinzais os cornos altos dos megacéros.

 

O homem primitivo, que somente
sofria terrores do vago, do inexplicável, começava a sentir a dor das coisas
passadas, mascarada pela sua necessidade para a vida.

Estava sozinho, porém já
possuíra uma companheira, membruda e forte, de peitos grandes e rijos, ancas
possantes, rodamoinhos de pêlo por quase todo o corpo, cingida pela tanga de
couro de leopardo, cabelos ásperos e longos flutuando, hábil na caça e no
preparo das peles. Raptara-a, após grande luta à beira dum lago, onde surgiam
cabanas da águas, em pontas de estacas. E, quando varava as florestas com elas
às costas, ouvia o berro selvagem dos que o perseguiam.

 

Uma feita, regressando da
caçada, parara estarrecido à entrada da cafurna. Dentro afuzilavam as pupilas
dum leão deitado sobre o cadáver da mulher. Dera um salto, brandindo o machado.
A pele do animal cobria agora as folhiças do leito, e o seu braço e a sua
cabeça guardavam a marca indelével das garras. Então, ao desejo imperioso da
fêmea desaparecida, seu corpo todo estremecia, suas narinas palpitavam.

 

Das montanhas próximas
veio, um dia, um casal alegre, que se estabeleceu numa cabana de folhagens, à
orilha da floresta, no último declive do planalto. O homem caçava ou dormia; a
mulher trabalhava sempre, cuidando dos alimentos, da limpeza dos couros e
chifres, dos reparos da habitação e do defumar das provisões. Krum olhava-os,
invejosamente, da sua caverna solitária. Já o recenvindo abatera centenas de
galos selvagens, cujas penas enfeitavam a companheira. E, perseguidos por dois
caçadores num vale pequeno, os animais emigravam. Não se viam mais os grupos
numerosos de ursos e cavalos de largos cascos, nem afocinhavam mais a lama dos
marnéis os babirussas nojentos.

 

Quando o novo caçador
chegava da faina, arrastando pelas patas traseiras um corpo castanho, a mulher dançava  de alegria e se enroscava nele, grunhindo.
Algumas pancadas do macho faziam-na afastar-se, esfolar a rez e sapecar na
fogueira as carnes sangrentas. Depois do repasto bárbaro, em que ele saboreava
as melhores porções, ambos roncavam, em pesado sono.

 

O troglodita solitário,
debruçado numa ribanceira, sentia ganas de agarrar a clava, descer o pendor,
esmigalhar a cabeça do rival e trazer a mulher para o gozo brutal da sua carne
aguilhoada. Mas o outro era sarrudo e forte, a sua machada pendia sempre do
cinto e no seu colar de presas de feras havia dentes de homens vencidos.

 

Uma tarde, Krum engatinhava
pelos ervais à cata de ovos de codorna, quando à sua frente rutilaram as asas
brilhantes do horfanz. Arremessou o bastão de caça curvo e pesado. A ave
tombou. Porém, das moitas defronte, uma pedrada certeira também a tinha
alcançado. Os dois homens acharam-se frente à frente, de armas em punho,
rugindo. Krum desviou-se ao primeiro golpe do contendor, estendeu o corpo para
diante e deu-lhe com o gume  do sílex no
crânio. A pancada foi rápida e seca como uma martelada. O outro caiu
pesadamente. O troglodita atirou a arma ao solo, abandonou o pássaro rutilante
e correu para a barraca do morto.

 

À meia-luz do crepúsculo,
subia a encosta do planalto com a fêmea atirada sobre o ombro, aos berros de
alegria e de triunfo. Os últimos raios do sol clarearam o seu vulto carregado
penetrando na furna.

 

E desde esse dia feliz,
tendo mulher e sendo o único a caçar no vale, Krum não invejou mais ninguém e,
com orgulho, se alcunhava o Vencedor.

 

 

 

Gustavo
Barroso
 

 

 

Gustavo Dodt Barroso, advogado, professor, político, contista, folclorista,
cronista, ensaísta e romancista.

Nasceu
em Fortaleza, CE, em 29 / 12 / 1888.

Faleceu
no Rio de Janeiro, RJ, em 03 / 12 / 1959.

Eleito
para a Academia Brasileira de Letras, em 08 / 03 / 1923 para a Cadeira n. 19,
na sucessão de D. Silvério Gomes Pimenta, foi recebido em 07 / 05 / 1923,
pelo acadêmico Alberto Faria.

Filho de Antônio
Filinto Barroso e de Ana Dodt Barroso.

Fez estudos nos
externatos São José, Parthenon Cearense e Liceu do Ceará. Cursou a Faculdade
Livre de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1911 pela Faculdade de Direito
do Rio de Janeiro.

Redator do
Jornal do Ceará (1908-1909) e do Jornal do Commercio (1911-1913)

Professor da
Escola de Menores, da Polícia do Distrito Federal (1910-1912); secretário da
Superintendência da Defesa da Borracha, no Rio de Janeiro (1913); secretário
do Interior e da Justiça do Ceará (1914); diretor da revista Fon-Fon (a
partir de 1916); deputado federal pelo Ceará (1915 a 1918); secretário da
Delegação Brasileira à Conferência da Paz de Venezuela (1918-1919); inspetor
escolar do Distrito Federal (1919 a 1922); diretor do Museu Histórico
Nacional (a partir de 1922); secretário geral da Junta de Juriconsultos
Americanos (1927); representou o Brasil em várias missões diplomáticas, entre
as quais a Comissão Internacional de Monumentos Históricos (criada pela Liga
das Nações) e a Exposição Comemorativa dos Centenários de Portugal
(1940-1941).

Participou do
movimento integralista, embora não concordasse com o rumo dos acontecimentos
a partir de 1937.

Estreou na literatura, aos 23 anos, usando o
pseudônimo de João do Norte, com o livro Terra de Sol, ensaio sobre a natureza e os costumes
do sertão cearense. Além dos livros publicados, sua obra ficou dispersa em
jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro, para os quais escreveu
artigos, crônicas e contos, além de desenhos e caricaturas. A vasta obra de
Gustavo Barroso, de 128 livros, abrange história, folclore, ficção,
biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e
ensaio, além de dicionário e poesia.

Pseudônimos:
João do Norte, Nautilus, Jotanne e Cláudio França.

Sua atividade na
Academia Brasileira de Letras também foi das mais relevantes. Em 1923, como
tesoureiro da instituição, procedeu à adaptação do prédio do Petit Trianon,
que o Governo francês ofereceu ao Governo brasileiro, para nele instalar-se a
sede da Academia. Exerceu alternadamente os cargos de tesoureiro, de segundo
e primeiro secretário e secretário-geral, de 1923 a 1959; foi presidente da
Academia em 1932, 1933, 1949 e 1950. Em 9 de janeiro de 1941 foi designado,
juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira, para coordenar os estudos e
pesquisas relativos ao folclore brasileiro.

Era membro da
Academia Portuguesa da História; da Academia das Ciências de Lisboa; da Royal
Society of Literature de Londres; da Academia de Belas Artes de Portugal; da
Sociedade dos Arqueólogos de Lisboa; do Instituto de Coimbra; da Sociedade
Numismática da Bélgica, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de
vários Estados; e das Sociedades de Geografia de Lisboa, do Rio de Janeiro e
de Lima.

OBRAS:

– CONTOS, CRÔNICAS E NOVELAS REGIONAIS:
Praias e várzeas (1915); Idéias e palavras (1917); Mosquita muerta (1921);
Mula sem cabeça (1922); Pergaminhos (1922); Alma sertaneja (1923); Mapirunga
(1924); O anel das maravilhas (1924); Livro dos milagres (1924); O bracelete
de safiras (1931); Mulheres de Paris (1933); Fábulas sertanejas (1948).

– ROMANCES:
Tição do inferno (1926); A senhora de Pangim (1932); O santo do brejo (1933),
– FOLCLORE,
CRÍTICA, ERUDIÇÃO E FILOLOGIA: Terra do sol. Natureza e costumes do Norte
(1912); Casa de marimbondos (1921); Ao som da viola (1921); O sertão e o
mundo (1924); Através dos folclores (1927); Mythes, contes et legendes des
indiens du Brésil (1930); As colunas do templo (1933).

– HISTÓRIA,
ENSAIOS E EPISÓDIOS HISTÓRICOS: Tradições militares (1918); Tratado de Paz
(1919);

A Ronda dos Séculos
(1920);
Coração da Europa (1922); Uniformes do Exército (1922); Antes do Bolchevismo
(1923); En el tiempo de los Zares (1924); O ramo de oliveira (1925); Almas de
lama e de aço (1928); A guerra do Lopez (1928); A guerra do Flores (1929); A
guerra do Rosas (1929); A guerra de Vidéo (1930); A guerra de Artigas (1930);
O Brasil em face do Prata (1930); Inscrições primitivas (1930); Aquém da Atlântida
(1931); Brasil – Colônia de banqueiros (1934); História secreta do Brasil, 3
vols. (1936, 1937 e 1938); A destruição da Atlântida, 2 vols. (1936);
Espírito do século XX (1936); Os protocolos dos sábios de Sião (1936); Os
civilizados (1937); O livro dos enforcados (1939); O Brasil na lenda e na
cartografia antiga (1941); Portugal – Semente de impérios (1943); Anais do
Museu Histórico nacional, vols. I a V (1943-1949); História do Palácio
Itamarati (1953).

– HISTÓRIA
REGIONAL E BIOGRAFIAS: Heróis e bandidos. Os cangaceiros do Nordeste (1917);
Osório, o Centauro dos pampas (1932); Tamandaré, o Nélson brasileiro (1933);
Caxias (1945).

– LÍNGUA E
DICIONÁRIO: A ortografia oficial (1931); Pequeno dicionário popular
brasileiro (1938).

– MEMÓRIAS E
VIAGENS: Coração de menino (1939); Liceu do Ceará (1941); Consulado da China
(1941); Seca, Meca e Olivais de Santarém, descrições e viagens (1947).
POESIA: As sete vozes do espírito (1950).

– PENSAMENTO:
Luz e pó (1932).

– POLÍTICA: O
integralismo em marcha (1933); O integralismo de norte a sul (1934); O quarto
império, integralismo (1935); A palavra e o pensamento integralista (1935); O
que o integralista deve saber (1935); O integralismo e o mundo (1933);
Integralismo e catolicismo (1937); A maçonaria: seita judaica (1937);
Judaísmo, maçonaria e comunismo (1937); A sinagoga paulista (1937);
Corporativismo, cristianismo e comunismo (1938).

 

 

 

 

O nome Krum é formado pelo
termo KRO – MAGNUM, relativo ao homem de
Cro-Magno, latinizado.

 

O nome do veleiro KRUM é uma
homenagem ao esforço do homem na incessante busca de suas orígens através os
séculos,  milênios …

 

 

 

FIM

 

 

 

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